quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Antonio Torres Neto

 


ANTONIO TORRES NETO, nosso avô paterno, nasceu nesta cidade, em 28 de abril de 1893. Na época, um lugarejo arborizado, de terras altas e férteis, chão batido, conhecida no primórdios como “Folhas Escondidas”. Aqui cresceu junto à família, trabalhando pelo progresso da região. Faleceu aos 17 de outubro de 1968, vitimado por um AVC, dada a sua fragilidade emocional e física, em virtude da morte trágica e inesperada do seu filho Antônio Torres Júnior, então deputado estadual, em 21 de dezembro de 1967. Filho do primeiro casamento de Marcelino da Rocha Torres e Maria Elvira Torres, seus irmãos: Juvenal da Rocha Torres, Ernesto da Rocha Torres, Ermilia da Rocha Torres, Pureza da Rocha Torres, Leonida da Rocha Torres e Maria da Rocha Torres. Irmãos pelo segundo casamento de Marcelino da Rocha Torres e Maria Bernadina da Rocha Torres. São eles: Temistocles da Rocha Torres, Nilo da Rocha Torres, Florisval da Rocha Torres, Antonio Guimarães Torres, Adelia da Rocha Torres, Alice da Rocha Torres, Malvina da Rocha Torres, Miguel da Rocha Torres e Jose Bino da Rocha Torres. O terceiro na ordem cronológica dos fundadores de Canhoba. O primeiro foi Manuel da Rocha Torres. O segundo, Antonio da Rocha Torres. Teve uma infância normal como qualquer criança de sua época. Concluiu seus estudos básicos em sua terra natal. Tinha visão voltada para o comércio. Em 1909, com apenas 16 anos, viaja para o estado do Amazonas, em busca de fortuna, trabalhando nas matas e nos seringais. Conheceu um fazendeiro de nome Manuel Dias (vulgo “Olho Vesgo”), homem rico e abastado, que o convidou para trabalhar com ele. Convite aceito, Antonio Torres Neto conviveu com o senhor Manuel durante 06 anos. Anos esses, defendendo as terras do fazendeiro contra índios e poceiros, pois tinha uma habilidade incomum no manuseio do seu rifle “papo amarelo” 44. Montou um grupo armado com 15 outros companheiros, com a função específica de repelir ataques e invasões ao território da propriedade, tendo espantado muitos ladrões e índios com êxito, deixando notória a habilidade no uso da sua arma. Em 1915 voltou a Canhoba. Seu retorno se deu facilitado pela ajuda financeira e da facilitação da fuga promovida pelo seu velho e grato amigo, “Olho Vesgo”, impedindo a perseguição dos outros poceiros, jagunços, índios, que desejavam vingança. O fazendeiro colocou Antônio Torres Neto dentro de um tonel com bastante peixe e bacalhau, descendo o rio Negro até Manaus, onde o desembarcou são e salvo. Porém, com um cheiro horrível de bacalhau. Chegando a Canhoba, com muito dinheiro trazido das suas economias, abre uma casa de secos e molhados com uma seção de tecidos. Mais tarde abriu um armazém onde comprava e estocava algodão, tornando-se um dos maiores distribuidores do produto citado, do Estado de Sergipe. Toda sua produção era enviada para Passagem Neópolis destinada às indústrias da família PEIXOTO. Utilizou-se também do seu saveiro (canoa de pano) “Antília”, para a entrega de mercadorias em Propriá e Penedo quando das cheias do Velho Chico (Rio São Francisco) que formava a lagoa em Canhoba. Também enviava e trazia suas mercadorias para Propriá em um “Carro de Boi” com seis bois de primeira qualidade conduzido por seu homem de confiança Antonio Carrero. Mais à frente em 1965 adquire um JEEP através de seu filho Job de Souza Torres ao comerciante amigo Sr. Nefranio comerciante em Aquidabã pra facilitar suas idas e vindas para Aracaju.  

Em 1917 casou com Leonida de Souza Torres. Tinha como apelido o nome de” Beata”, porque, além de muito fervorosa e católica praticante, era também o braço direito de todos quantos se dispusessem a cuidar da simpática Igreja Matriz de Bom Jesus dos Pobres. De família humilde, proveniente de Propriá, era mulher prendada, boa esposa e mãe, além de muito caridosa e uma exímia violinista, fato inédito naquela época. Beata teve apenas uma irmã, Hermínia de Souza Guimarães. Enquanto Beata, casada com Antonio Torres Neto, teve muitos filhos, sua irmã, casada com Cupertino de Santana Guimarães, teve somente uma filha, Emília, a quem todos chamavam, carinhosamente, “Milinha”. 

Quanto a dona Beata, teve 22 filhos, porém, desses, só viveram nove: Delorisano de Souza Torres, Aldemira de Souza Torres, Mirabel de Souza Torres, Antonio Torres Júnior, Maria Auxiliadora Souza Torres, Ida de Souza Torres, Jacob de Souza Torres, Job de Souza Torres e Arquibaldo de Souza Torres. 

Antonio Torres Neto estava construindo um império de negócios na região. Montou seu próprio banco em casa, emprestando dinheiro aos mais necessitados com juros baixos e até mesmo para alguns mais precisados, sem juros. Tornou-se o “Pai dos Pobres de Canhoba”

Fazendo parte de um projeto de diversificação de atividades, passou a comprar terras, chegando a nove mil tarefas, até seu falecimento. Essas terras todas foram registradas no cartório de Gararu pela importância de Cr$ 825.000, 00.São elas: Lagoa da Mata, Bela Vista, Santo Antônio, Gravatá, Lagoa Salgada, Rancho de Canoa, Valadão e Chanchão, quase igualando-se às propriedades de seu amigo Antonio Ferreira de Carvalho, “Antônio Cacheiro”. Em 1935, comprou um terreno ao lado da Igreja Matriz de Bom Jesus dos Pobres. Construiu a famosa “Casa Amarela”, que em seu frontispício consta a inscrição “1935. Residência dos Torres”. Nos dias atuais continua de pé, resistindo ao tempo, guardando suas memórias de épocas de muita fortuna, alegria, dor, sofrimento, luto. Foi palco de inúmeros eventos de natureza social e política, onde compareceram personalidades da época, a exemplo de Eronildes Ferreira de Carvalho, Leandro Maynard Maciel, João de Seixas Dória, Euclides Paes Mendonça, Dionizio de Araújo Machado, Lourival Baptista, Luiz Garcia, citando somente alguns. Recebia igualmente aqueles mais simples, moradores locais, amigos, pessoas de “dentro de casa”, as quais partilhavam de sua mesa farta nas 3 refeições, fato que era, para o anfitrião, motivo de prazer e de uma sincera satisfação. A todos acolhia.

Em 16 de março de 1936, o Governador de Sergipe “Manoel Dias Goldemberg”, nomeou-o Comissário do Ensino em Canhoba. Tal fato, levou-o à Política, anos depois, em 1946. Filiado à UDN – União Democrática Nacional – recebeu apoio inconteste de Leandro Maynard Maciel. Elegeu-se vereador para os anos de 1947-1951. Continuou a trajetória política, e em 1958 assume o Executivo Municipal, para o período de 1959-1963, numa consagração popular.

Empossado e recebendo as ovações do público, o seu documento de legitimação lhe foi entregue por sua filha, Ida de Souza Torres, Presidente da Câmara Municipal. Após a arrumação da Municipalidade, inicia as obras que julgava indispensáveis para o desenvolvimento do Município de Canhoba. O Prefeito concretizou um sonho do povo, e urbanizou o grande terreno central, onde se via somente a Igreja Matriz e à sua frente uma enorme cruz, em madeira. Tombaram para facilitar as obras, os dois tamarineiros gigantes, cujas copas viçosas e fartas, abrigavam os cavaleiros e seus cavalos, em dias de feira e festas. Acolhiam a criançada nos seus folguedos como se suas casas fossem. Hoje, na Praça, encontram-se o Santo Cruzeiro, a Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus dos Pobres, a Escola “Dr. Eronides de Carvalho”, os casarões dos dois vultos de importância singular para a região, aquelas do Sr. Antônio Ferreira de Carvalho, o Antônio Caixeiro, e do Sr. Antônio Torres Neto, que é a “Casa Amarela”. O homenageado de hoje demonstrava espontaneidade em cada um dos seus mais incomuns gestos e atitudes. É o caso da amizade do velho Torres Neto com José Vieira Melquides, conhecido por “Zé BomBom” ou “Zé de Alfredo”. Este, desejando começar o seu comércio, solicitou ao amigo, a título de empréstimo, uma certa importância em dinheiro para adquirir 50 sacos de farinha. Foi logo atendido no seu pleito. Ao fazer a compra, relatou, após questionamento, quantos sacos de farinha ainda restavam no local onde fora comprar, tendo respondido restarem 200, recebendo a orientação de comprar todos. Atendeu a solicitação, iniciando logo as operações de venda da mercadoria. Ao prestar contas ao Sr. Torres Neto, ao relatar o êxito que obtivera vendendo todos os 250 sacos de farinha, recebeu como recompensa o valor equivalente a 50 sacos adicionais. O Sr. Zé de Alfredo ainda relata tal episódio tomado de emoção vívida com seus 84 anos em Nossa Senhora do Amparo-Sergipe. 

Em 1964, na qualidade de Deputado Estadual, o seu filho Antônio Torres Júnior, contratou o músico José Augusto, filho ilustre da cidade de Aquidabã, para uma apresentação em Canhoba. O show foi realizado na calçada da residência da Família Torres, na Praça que leva o seu nome, número 84. Foi um sucesso, confirmado pela alegria e entusiasmo da população.

Ainda como parte das realizações a que se propusera, o Prefeito Torres Neto se debruçou em um projeto considerado arrojado para aqueles dias. Era o projeto que compreendia a pavimentação a paralelepípedos da Travessa Dr. Eronides de Carvalho, a Praça Principal, em frente à Matriz, e de outra Praça que fica no fundo da Igreja referida. Projeto aprovado por unanimidade pelos vereadores da época (1955/1963) com os nomes das Praças. Central: Deputado Antônio Torres Junior e, a do fundo da Igreja, Job de Souza Torres. Executado o projeto, designou-se o dia da inauguração 28 de abril de 1961, aniversário do Prefeito, que naquela data completava 68 anos de idade. Inclui a Construção do Santo Cruzeiro em concreto armado. A primeira data de inauguração do Santo Cruzeiro foi em 07/06/1910.Seus fundadores foram os missionários Frei Rocha e Frei Anatanael com o apoio de...Antonio Ferreira de Carvalho (Antonio Caxeiro). O Santo Cruzeiro era de madeiro...Em 14.04.1960 ventava e chovia muito em Canhoba devido aos ventos e chuva forte o Santo Cruzeiro veiou a cair…Minha avó paterna D.Leonilda de Sousa Torres (Beata) que passava no local gritou: “Valei-me Deus caiu o Santo Cruzeiro”. Meu avô paterno Antonio Torres Netto era prefeito nesta época juntamente com seu filho meu pai Antonio Torres Junior deputado estadual o Governador Luiz Garcia e o Vice Governador Dionizio de Araújo Machado fizeram o Santo Cruzeiro de Concreto Armado. Foi inaugurado em 28.04.1961.Em 07/05/1961 Dom José Brandão de Castro, 1º Bispo de Propriá, dá a Benção Litúrgica e oficializava a festa do Santo Cruzeiro.

Nesta data memorável, o Dr Luiz Garcia, Governador do Estado, dirigiu-se à Terra dos Cataiobas (indígenas que habitavam a região), acompanhado de Secretários de Estado, altas autoridades e Prefeitos da região circunvizinha que foram recepcionados na Praça Nossa Senhora da Conceição por: Maria Amélia Torres e Luciene Gomes de Menezes, prendadas senhoritas da sociedade local, que esperavam a comitiva, segurando a fita verde e amarela, que seria  cortada pela Primeira dama do Estado, Emília Marques Pinto Garcia ,dona Ninota.  Seguindo o cortejo para a Praça que recebia o nome de DEPUTADO ANTONIO TORRES JUNIOR, orador brilhante filho do Prefeito, o Governador e o Prefeito descerraram a placa, encoberta pela Bandeira Nacional, junto ao obelisco comemorativo. O Governador do Estado. Dr. Luiz Garcia, fez expressiva oração saudando o Prefeito Antônio Torres Neto e ao seu filho homenageado Dr. Antônio Torres Junior, então Secretário da Justiça e Interior de seu Governo, tendo na legislatura anterior, sido Presidente da Assembleia Legislativa do Estado. Outros oradores se associaram ao Governador, chegando a vez do homenageado usar a palavra, que em um momento iluminado, encantou a todos com a sua voz de estadista e conceituado homem de cultura. Entre os muitos, o da inauguração desta praça, foi um dos mais bonitos. Ali estava a promessa de ascensão de um grande homem, um político reconhecidamente ilustre, prefeito de valor, nascido na terra fundada pelo seu bisavô, Manoel José da Rocha Torres. Na mesma data inaugurou-se também a Praça “JOB TORRES”, outro filho do Prefeito, irmão de Antonio Torres Junior, no fundo da Matriz. Uma salva de fogos, concluiu o ato de inauguração, passando os convidados e o povo, para a residência do Prefeito, que ofereceu um farto almoço, enquanto na praça as manifestações folclóricas alegravam a população, que dava vivas ao Prefeito, ao Governador, ao Dep. Torres Junior, o grande homenageado e as autoridades presentes. Governador do Estado: Dr. Luiz Garcia e esposa Emília Marques Pinto Garcia. Vice Governador: Dionizio de Araújo Machado. Bispo de Propriá: D. José Brandão de Castro. Prefeito de Canhoba: Antônio Torres Neto, e esposa, Leonida de Souza Torres. Deputado Estadual Antônio Torres Junior, sua esposa Gicélia de Araujo Torres, (filhos Angela/Angelo). Deputado Estadual Sebastião Figueiredo. Prefeito de Itabaiana: Euclides Paes Mendonça, e esposa Maria Oliveira Mendonça. O Jornalista Santos Santana. Fonte: Gazeta de Sergipe 29.11.2001. Escritor Lauro Rocha de Lima, Jornal Original arquivo da família Torres Junior (Angelo Torres), anotações escritas por Torres Junior…Estava começando a ascensão dos Torres no poder. Com ajuda de seu filho deputado Antonio Torres Junior formaram a maior liderança política em Canhoba de 1955 – 1970. Fato curioso e real no pleito de 1966, é que o amicíssimo da família, Teodomiro Custódio Divino – Lau, UDENISTA/ARENISTA, juntamente com o deputado Antonio Torres Junior e seu pai Antonio Torres Neto articularam e convenceram o chefe político do PSD  ( Partido Social Democrático ) Francisco Alves de Rezende (Chico Rezende) a retirar a candidatura do seu sobrinho Elvânio Rezende no pleito de 1966.Tudo amigavelmente e politicamente entre as famílias. Assim foi feito. Arquibaldo de Souza Torres foi o candidato único no pleito de 1966 para a prefeitura de Canhoba. Fato INÉDITO naquela época na política Sergipana e no Brasil. O mesmo foi eleito por unanimidade para um período de 1967 a 1970. Estava formado o quarteto Arenista. A ideia era desenvolver Canhoba. O deputado Antonio Torres Junior, Lourival Baptista, governador, Arquibaldo de Souza Torres, prefeito e o chefe político Antonio Torres Neto.. Na sucessão do Governador Lourival Baptista, o deputado Torres Junior seria seu sucessor para governo. Em 1967, dia 21 de dezembro, o deputado Antonio Torres Junior é assassinado. O prefeito Arquibaldo de Souza Torres completa seu mandato sem desenvolvimento. Deixou a prefeitura saneada, sem nenhuma dívida e o salários todos pagos. Sonho não concretizado.

 Em janeiro de 1968, o governador Lourival Baptista, executando projeto deixado pronto pelo falecido deputado filho de Canhoba , Antônio Torres Junior,   inaugurou juntamente com o prefeito na época, Arquibaldo de Souza Torres ,  já sem a presença de Antonio Torres Neto, (vitimado por um AVC)  uma praça que leva seu nome . Lá consta uma placa com esta inscrição: “Aos benfeitores desta terra, pela instalação dos serviços de energia elétrica de Paulo Afonso, a gratidão dos canhobenses. Janeiro de 1968”. Hoje, infelizmente, não temos esta placa, retirada de onde estivera originalmente da praça Deputado Antonio Torres Junior. (Um ato de vandalismo.) 

Quando do sepultamento do Ex Prefeito, no cortejo fúnebre para Cemitério Santo Antonio em Canhoba partindo para sua última morada, foi registrada a manifestação da população, que acenava com seus chapéus e lencinhos brancos exclamando, entre lágrimas e forte comoção, : “ QUE MORRERA O PAI DOS POBRES DE CANHOBA.” Sim, eu, Angelo Mauricio de Araujo Torres, seu neto, estava lá, contemplando todas as cenas. Antonio Torres Neto foi Agricultor, Progressista, Alto Comerciante, Empreendedor. Homem sério, trabalhador, cuidava muito bem de suas propriedades, dos seus empregados - que eram muitos trabalhadores. Tudo se tornou silêncio. Mas, o testemunho de um homem que amava sua terra, sua família, seus amigos, seus trabalhadores, permanece. Hoje não ouvimos mais suas histórias, quando sentados na calçada, ao cair da noite, frente à Igreja Matriz, que fica ao lado de sua residência, com os amigos: João Pequeno, compadre Manoel Macola, Candido, Nozinho, Jose Rozendo, Tio Job, Batistão do Violão, Mane Gago e tantos outros. Só lembranças de um grande homem à frente do seu tempo, Antonio Torres Neto. Texto redigido pelo seu neto, pesquisador, historiador, comendador Angelo Mauricio de Araujo Torres.

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